quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Artigo - Coisa de louco

Um cidadão e seu carro trafegam tranqüilamente quando, justamente em frente a um hospício, o carro pára abruptamente. Eis que o motorista abre o capô e está a verificar o que se passa, quando em cima de um muro um dos internados grita: é o cabo da bateria que está solto. O motorista retruca: como sabes, se és louco? A resposta é imediata: sou louco, mas não sou cego, nem burro.

Esta velha anedota ilustra bem o momento em que vivemos, momento em que o eleitor está qual o “louco” em cima do muro, a esperar os carros pararem com seus defeitos para dar seu veredicto. E, em poucos segundos, deixar na urna seis votos que definirão nossas vidas pelos próximos quatro anos e, no caso dos senadores, por oito anos.

O grande problema é que só nos últimos dias o eleitorado tem se dado conta da proximidade da eleição. E justiça eleitoral, com inserções ainda tímidas, começa a falar da eleição didaticamente, pois o sistema de ensino não o faz com competência, já que há universitários e outros tantos já formados que ainda não sabem as diferenças entre deputados estaduais e federais. No caso destes últimos, muita gente pensa que podem ter votos no Brasil todo.

Se souber as funções de cada parlamentar for pedir demais, não sabem o porque do Senado, nem a forma de eleição dos senadores e a necessidade da duração de seus mandatos serem de oito anos. Como nosso sistema é bicameral e por ser o Senado uma casa revisora, o que em tese propicia equilíbrio à Republica, tenho lá minhas duvidas também quanto ao equilíbrio pretendido.

Boa parte do eleitorado ainda não sabe o que é voto majoritário e voto proporcional, fator importante, pois o presidente, governadores, senadores e prefeitos precisam alcançar a maioria, diferenciando-se ainda os cargos executivos que precisam de maioria absoluta, dai a existência do segundo turno para legitimar as vitórias, já que infelizmente a direita golpista quis no passado impedir a posse de Juscelino Kubitschek, nas eleições de 1955.

Outro fator importantíssimo que está esquecido é o do quociente eleitoral, ou seja, os cálculos para eleger os deputados estaduais e federais. O desconhecimento faz com que muitos não entendam o porque um fulano com muito mais votos que outro ficar de fora, enquanto o outro se elege. Esta conta precisa ser explicada.

No caso da Assembléia Legislativa, dividem-se os votos validos do estado por 94, que é o numero de cadeiras, para chegar-se-á ao quociente para “fazer” a legenda. Imaginemos os partidos e coligações como se fosse um saco a encher de votos e a cada quociente elege-se entre os nomes das muitas vezes “saco de gatos” o que nominalmente tiver mais votos, pois o cidadão pode votar apenas nas legendas dos partidos.Aliás, como se dá também nas eleições de Vereadores.

Somados todos os votos de cada “saco” digo, partidos e coligações, sobrarão sempre vagas que serão distribuídas pelos partidos e coligações de acordo com suas sobras, lembrando que para entrar neste “rateio” tem que eleger ao menos um integrante.

Pois é, meu amigo, se conseguiu entender essa loucura eleitoral e por acaso seu carro encrencar em frente a um hospício, é melhor acolher o conselho do “louco”, pois de carros e eleições ainda entendemos pouco.
Luis Carlos Romazzini

Artigo - O drama do México

Dramalhão Mexicano. Sempre falamos assim quando queremos indicar uma novela ou estória de gosto duvidoso. Mas, agora não, agora a coisa tomou proporções dramáticas, com mais de meia centena de mortos de uma só vez e o pior é que mataram até quem estava investigando os fatos. Ou seja, há um Estado criminoso dentro do Estado Mexicano.

Existem ali varias questões. As principais são os cartéis de tráfico de drogas, mas o tráfico de pessoas também tem sido a tona. Todos os anos, milhares de mexicanos e outros latino-americanos tentam entrar em território americano. Muitos morrem de sede e fome, na longa travessia do deserto do Arizona, enquanto outros têm destino mais cruel, extorquidos nas mãos dos “coyotes”, ou dos agentes mexicanos, tão corruptos que sequer se submetem ao controle do Estado.

Por outro lado, o próprio México, histórica vitima da sanha imperialista dos EUA, que lhe tomou boa parte do território e, por meio de contratos suspeitíssimos com governantes corruptos do México, levam a maior de suas riquezas, o petróleo, a preços ínfimos, fazendo com que a miséria continue sendo a tônica do outro lado do rio Grande.

Aliás, esta miséria não só mexicana, mas também africana, latino-americana e até mesmo de parte da Europa, apesar da Comunidade Econômica Européia. A verdade é que o mundo todo está se dividindo entre eldorados desenvolvidos e trevas de miséria, por todos os continentes. E não adianta usar a milenar prática de construir muralhas, como na Velha China. A verdade nua e crua é que estamos nos tornando insustentáveis, enquanto civilização. Somos os vermes da terra, vermes de nós mesmos, vermes da democracia que corroemos a cada dia.

A situação do México e sua fronteira porosa com os EUA nos remete às nossas próprias fronteiras, que muitos tolos crêem ser possível policiá-las, mantê-las intransponíveis, simplesmente porque não conhecem nada de nada, nem de nosso pais e suas mazelas e tampouco das mazelas de nossos vizinhos.

A questão das migrações passa por um novo olhar, de mecanismos multilaterais, como a ONU. A questão das drogas, por sua vez, passa por políticas internas de cada pais. Que cada qual feche as narinas de seus usuários de drogas, que abandonem o insano modelo de combate, que só serve para enriquecer traficantes e corromper agentes do Estado e passem a adotar políticas mais realistas e menos hipócritas. Agora, que dói muito ver uma Nação inteira contar mortos da brutalidade criminosa, isso dói. Mas, pior é não ver no horizonte uma mudança deste horrendo drama.
Luis Carlos Romazzini

Artigo - Zé Profeta

Com cabelos já brancos, vi e vivi muita coisa. Como soaria piegas falar das bramuras pessoais, fico por personagens anônimos ou nem tanto, que já conheci. Muitos felizardos, outros azarados, profetas do caos ou da bonança. Mesmo porque hoje em dia o negocio é pensar positivo, rende um dinheiro danado, principalmente para os autores destes livros que lhe abrem a porta da prosperidade, desde que você os compre, é claro.

O paraíso nunca foi tão mercadejado, nem o capeta tão cortejado. Uns o usam como escudo, outros como lobo mau. Enfim, sempre haverá gaiatos e cascateiros, assim tem me ensinado a vida.

Está lá, no Código Penal, que charlatanismo é prática punida. O ‘X’ da questão é definir o que, quando e como se dá o charlatanismo, tal a plêiade de charlatães dos tempos atuais. Mas, é melhor não me imiscuir em política, por óbvias limitações legais; Então, vamos lá.

Ainda menino, conheci um azarado que, ao aproximar-se de uma dona de casa, imitando a voz do rádio, que logicamente sairia do ar pelos próximos trinta minutos, quando a desavisada percebeu: lá ia o gatuno, com seu rádio e palmas para a originalidade. O mesmo não deu tanta sorte quando da Copa do Mundo de 82, pois foi roubar a antena de uma televisão em pleno jogo do Brasil e levou uma coça daquelas.

Conheci outro que vendia terrenos no céu, e não era deputado em Brasília. O malandro vendia tudo que se podia imaginar, até mesmo lotes de terra em baixa de maré. De profetas, já li muito, não só os da bíblia, os do pessimismo, mas conheço um que o chamarei de Zé Lelé.

Meio gagá, rábula de boa cepa, boêmio inveterado e cópia de Murdoch, que luta com sua agruras diárias não só para fechar o jornal toda sexta, mas também as contas no fim do mês. Cujo jornal prometo não mais ler, pois o bruxo só acerta. Tudo que falou do Governo Farid, ‘pimba’. Agora volta ele sua baterias para a pobre prefeita e o ‘boca de conflito’ não erra uma. Já xingado por prenunciar o caso, não é que o gaiato previu, em letras garrafais, todo este caos que Guarujá se encontra. E, pior. Diz ele que vai piorar. É ranzinza e tem um amigo chamado Fubá, mas que acerta tudo, acerta. Então, nesta terra que Deus deu toda a beleza do mundo, temos nosso profeta, que segue tinhoso e forte. Habemos profeta.
Luis Carlos Romazzini